::Sexta-feira, Dezembro 03, 2004::

NOVEMBRO  



Do que não se sabe

Sem medo, sabe? Você não sabe ainda, mas um dia vai saber.
O medo fica ali petrificado pra quem não olha fixo pra ele, pra quem não consegue chegar perto pra entender suas formas, suas cores.
Ele é enquanto desconhecido; ele está, e depois voa, quando olhado no olho. O olho verde do medo, tão verde que dói.
É igual à mariposa-monstro que estava na porta do armário. Ficou lá enquanto eu fechava a porta do quarto e deixava ela dormir sozinha - eu dormindo no quarto ao lado.Ficou lá. Um dia, dois dias, três, quatro, quatro e meio. Sem se mexer, sem piscar.
Até que eu finalmente cheguei perto. Olhei bem a mariposa-monstro e seus olhos tão verdes, e ela nem era mais monstro. Era uma pequena fada preta que tinha pousado ali pra me ensinar alguma coisa.
Foi quando ela sorriu (acho). E foi embora, de uma voada só.

Olha só

Talvez ninguém, nunca, vá entender o pocotó do meu peito. Aquele pocotó que se exacerba raivoso, por exemplo, quando a bolacha do chope gruda no copo, ou quando a porta giratória trava, ou quando o garçom diz "hein?". Ou então quando eu quero você de todo meu corpo, ou quando quero cantar muito e alto, ou quando sim, eu ouço o tumtum aqui n´alma.
Talvez não, beibe. Como acho que nunca. Mas talvez também isso não seja impedimento para eu me apaixonar de jeito louco de novo, talvez isso não me impeça de ter cabelos bicolores, botas de meninos, saias no meio das coxas, amor pela minha filha, vontade de viver tudo nesse momento.
Talvez não. E o amor bate à porta. Licença, vou abrir.

A felicidade

Sabe, a felicidade geralmente está nas mínimas coisas.Na respiração, na temperatura do corpo, às vezes na risada que parece uma risada sísmica, uma risada de vulcão.E eu fico mais feliz por ter visto a felicidade nestes olhos e fico mais feliz por ter tomado um gole dela.E fico mais feliz por ter sentido um pouco do cheiro e compartilhado da sinceridade que vem dali de dentro, sabe - e sinceridade esta que é parte integrante e insubstituível da tua (da minha) felicidade.O especial reside aí. Você sabe.

# posted by alex @ 22:28


OUTUBRO  

Paisagem Histérica

Palavras não me saem, hoje.Situação inconcebível, olha só pra mim, estou muda.
Logo eu. Muda.
Flores severas que se alçam e dão-se a cheirar. Espinhos.
Apenas espinhos é o que são. Nada.
E toda a música do mundo que se cala em letras tristes
E o tempo-espera que se desespera no tiquetaque dos relógios - todos quebrados.
Calo, deito mas não durmo - sonhos são, eles mesmos, verbais demais.Não quero verbos, frases, vozes. Quero a fragrância de algo que não fale
Que não diga, que não cante. Plantas silenciosas que estejam lá, e lá fiquem.
Coisas-pedras, solidez, uma rochura
Cinzenta que não amanheça todos os dias como as cores berrantes
Que amanhecem e berram e amanhecem e berram.
E é tudo uma manhã constante, um ensurdecer ensolarado que me dói
Olhos e ouvidos.
Quero uma paisagem lenta e simples como o cheiro da minha filha.

Requintes

Hoje o dia foi um pouco mais longo do que o normal e bem mais cruel também. São reeves e sabinos que desabam e tetos de crueldade um pouco mais anônimos que caem sobre a minha cabeça, assim, sem barulho mas com uma força ensurdecedora. Um dia assim não precisa nem ter começo, mas parece que não tem fim, e vem, e palavras cruéis e idiotas e tão tão tão prepotentes que emudecem qualquer tentativa de conciliação - não seria entendida, anyway. E você olha nos olhos da pessoa que se sente tão maior e vê que de grande ali não tem nada. E tenta escutar e entender, mas entender o quê, se não se diz coisa com coisa? De burrice basta o mundo, mas não, a mãe de todas as burrices está ali, jogando insanidades para dentro dos teus ouvidos do outro lado da mesa. E você tem vontade de correr ou de esmurrar, o que vier primeiro, mas a burrice te empedra feito um poder mitológico e você não faz nem uma coisa nem outra. Talvez até babe de tamanho desespero - e o bicho de sete cabeças burras do outro lado da mesa vai achar que é desejo, ou submissão, ou admiração. E é desespero em baba pura e você não pode fazer nada mais do que babar e desejar que o dia acabe logo. Mas o dia não acaba, a noite apenas começa, e é preciso dormir.
Com um barulho destes.

Deserto

"Sempre quis conhecer um deserto", ela disse. E lá estava ela, aquele sol absoluto queimando sua testa, sua boca, suas têmporas.
E eles diziam "Mas tem água, mas tem água", ao que ela respondia
"Não sejam tolos, é um deserto. A água fui eu quem trouxe".
Sente só. A terra quente por sob os teus pés.
Sente o cheiro da terra queimada, gritando por água. Ouve.
Não dá medo. É bom.
E é muito lindo, mais lindo do que qualquer coisa jamais vista - por ti ou por mim. Por nós.
Parece até real, de tão sonho que é.
De tão sonho que é.

# posted by alex @ 22:23


SETEMBRO  



Saber ■ verbo transitivo direto, transitivo indireto e intransitivo 1 conhecer, ser ou estar informado; ter conhecimento de 2 ter gosto de, lembrar o sabor de; ter sabor, ser sápido

Eu não me sei.Das coisas que sei, essa é uma delas.Nunca me soube, aliás.
Julgava saber, mas fato é que
Eu não me sei.
As coisas que me vêm também não me sabem -
Ou então não me viriam.
Porque chegam e eu as amalgamo, imediatamente,
Ou então as mastigo e cuspo, sem olhar para trás.
As coisas que me vêm, certamente,
Não me sabem.
E minha solução é este mistério de olhar pra frente, sempre,
Esperando algo que saiba a água, a muita água e muita pedra
Algo que saiba a mim.
Algo que saiba
- estritamente -
a mim.

tanto mar, tanto mar

Tanto mar que os olhos ainda enchem d´água. Porque nos sonhos sonhados à noite as perguntas ainda existem, e são tão claras as respostas.Mas nos sonhos vividos de dia já está tudo resolvido. A resposta é sempre não.O valor dos dois tipos de sonhos pra mim é igual, ou quase. Tendo a valorizar o primeiro, em detrimento da fugaz realidade do segundo. O primeiro pra mim é mais perene, é mais real. É mais constante.Porque acredito, sim. Eu acredito no sim. Mas hoje só é possível acreditar no sim enquanto durmo, enquanto sonho.*O que me resta agora além de navegar, navegar?

Emptiness

Estar vazia não é ser vazia; pelo contrário. Pessoas vazias geralmente estão com a vida tão cheia de coisas e gentes e medos e alegrias e tudo, para não terem que se olhar no espelho, para não terem que se sentir. Estou vazia sim, mas não o sou. Não sou completa, entretanto, e acho que nunca o serei. Estou vazia porque nunca estive, e então resolvi estar. Fui deixando as coisas pra trás, o guarda-chuva pendurado na escada do shopping Villa Lobos foi apenas o começo. Depois, fui largando os olhares aqui, deixando os "eles" ali, soltando as mãos.Caminho agora ainda meio trôpega, ainda um pouco sôfrega, ainda não muito sólida.Mas caminho. Caminho sozinha, caminho vazia.Estou vazia, me desafiando, me confrontando. Para poder não ser vazia nunca mais.

# posted by alex @ 22:19


::Quarta-feira, Novembro 17, 2004::

AGOSTO  

The Film

Revelo
Agora todas as minhas vontades, aqui na tua mão, olha, as minhas vontades, sob os teus olhos,
Desenovelo
Esse filme que sou eu, essa imagem P&B
-que sou eu-
E aqui na minha mão, olho, olho as tuas vontades, com os meus olhos, e elas são banhadas por todo o meu
Desvelo
E o tempo que nada revela e as coisas que estão além e mãos brancas e nuas e olhos fechados e olhos fechados e olhos fechados e olhos fechados.
Relevo.

Chiara

Ainda lembro, e sempre vou lembrar, de quando você nasceu. Eu toda amarrada, ali, colocaram você do meu lado, sobre meu ombro. Eu não podia colocar minha mão em você, porque minha mão estava presa na maca, então eu te lambi. É, eu te lambi, como a loba faz com o filho, eu lambi você e você abriu os olhos imensos que você tem desde bebê. Abriu os olhinhos e me olhou. Você despertou pra vida, filha, com uma lambida.E foi assim que tudo começou, que você virou meu mundo do avesso. Que você, contrariando tudo o que a gente ouve, começou a me ensinar. Sou sua aluna, todo dia, nessa escola que é ser mãe. Dei meus primeiros passos sob a tua batuta de filha, vou aprendendo, dia a dia, a ser um pouco melhor, por você e pra você.Sua destreza com as palavras, os jogos de sentidos, você herdou da sua mãe. Seus olhos grandes, seus pezinhos firmes, são iguais aos do seu pai. O seu carinho pelo mundo e por tudo o que vive é seu, todo seu, e sempre vai ser só seu. Seu olhar tinge todas as coisas de cores belas e simples, e isso espanta quem está em volta. Já me disseram uma vez, "Chiara é alma". E eu concordo, 100%. E digo mais: Chiara é Cuore. 100%.Te amo, Filha. Vai pra vida, que ela taí, de braços abertos, esperando você. E todas as suas cores.

Nada de novo

Acho que sim, acho que vou reconhecer você quando cruzar a minha estrada. Acho que até sei que vai ser um dia nublado, assim, meio escuro, com aquele cheiro de chuva recém-caída, e eu vou estar ali, talvez comendo uma maçã, sentada numa pedra quente, olhando as nuvens pretas, do lado de uma piscina formada por uma cascata ali perto. Minha mochila, entreaberta, do meu lado direito, com meus cacarecos, meus óculos, um ou dois isqueiros, creme de girassol pros cabelos, um livro de poemas e um caderno de anotações. E você vai chegar e me perguntar as horas, e eu não vou saber porque meu relógio vai estar quebrado como sempre, e eu vou rir disso e você não vai entender.
E quando eu te olhar eu vou ver uma sombra sob seus olhos e vou achar que é da nuvem, mas depois vou ver que são os teus cílios que abanam tuas pupilas pretas e grandes que é o que faz sombra sob teus olhos. E tua boca que não vai parar de falar vai me mostrar uma grande fileira de dentes fortes e não tão claros, talvez os dentes incisivos mais marcados, e isso vai me chamar a atenção.
E quando você passar a mão nos cabelos compridos e escuros, na primeira risada que der, aí vou ter certeza que o reconheci e vou sentir felicidade, talvez mergulhar na água doce do meu lado, para comemorar do jeito certo esse encontro. E vai começar a chover e vai ter fogos de artifício como no encerramento da Olimpíada, como um final de uma coisa que também é o começo e a comemoração.
E nada disso vai ser novo, ainda, nunca mais nada vai ser novo aqui dentro de mim, porque tudo vai ser uma repetição de tudo, uma oitava acima, sempre, mas uma coisa da qual já sei o gosto e o nome e o cheiro.
E, lógico, tudo isso já aconteceu. Eu não estava, talvez. Mas sei que aconteceu.

palavras, mentiras

E as palavras cuspidas já foram todas embora, todas tortas de sentido, pesadas de significado, não-descobertas, nunca, foram pra lá, travestidas sob o manto da pureza, pregando a verdade reverberante por aquelas estradas desgraçadas de tão vermelhas, e lá vão elas, imponentes, as palavras e as meia-palavras também, por meio de uma chuva de escárnios e escarros e pontapés de pessoas que não ouvem nada, que não enxergam nada - que não dizem palavra. Que amam.*E que são inteiras por isso.


sobre a chuva

E a tempestade veio. E emprestou o cheiro e os tons que azularam as paredes e os olhos e os bichos todos. E com ela o gosto que amarra a língua e trava pernas e reconhece, o gosto que reconhece e encontra e esmurra as barreiras e os déjà-vus. Haha, olha só. Os conceitos, todos, pelo chão.*E sabe que na volta pra casa, depois de toda a tempestade, naquela rua, sabe aquela?, aquela pela qual eu passo umas oito vezes por dia, então, naquela rua eu vi tanta coisa nova, tanta coisa que já existe lá há muito mais tempo do que eu mesma existo no mundo, tanta coisa que eu nunca vi. *Vi um lugar de pedra, de dois andares, todo pichado, com um luminoso vermelho piscante onde se lê "Bailes", e não se vê o nome porque o luminoso não acende ali. O lugar que entrega a função mas nunca entregará seu nome, olha só, e paro o carro pra enxugar uma lagriminha que teima em me obstruir a visão, e penso, esse lugar podia ser eu, olhe bem, esse lugar sou eu.*Sou uma mulher-lugar que por fora é de pedra, tenho coisas escritas na pele também, mas tenho bailes inteiros periodicamente ocorrendo dentro de mim, e você pergunta meu nome... aqui, veja só, eu estou com meu néon vermelho piscando tumtum, tumtum; receba minha função já definida, e meu nome a combinar. *Diz meu nome. Diz meu nome agora, antes do baile terminar.


quinta fase

Voltando pra casa, hoje, lá estava ela. Assim mesmo, branca branca, bianca neve, boiando lá naquele mar escuro, acima de todos os carros que corriam como o meu, acima de todas as cabeças que voavam como a minha. Ela, soberana, serena, rindo de mim e de todos os outros angustiados dessa terra.*E foi então que eu entendi. E soltei o ar, e fiquei lívida eu também, e sorri pra ela.Que não é crescente, que não é minguante, que não é cheia, que não é nascente.
Minha lua sorrinte.


por entre as coisas

Ela tá ali, escondida embaixo da mesa nas aulas de alemão, do olhar maternal e doce da professora húngara, no meio das frases Ich esse Brot, Ich spreche mit meinem Vater, ela me olha. Ela sai de dentro do porta-luvas do carro, enquanto dirijo pelas ruas de Pinheiros, procurando um sinal em forma de cheiro de jasmim que me anuncie que a primavera está chegando.Ela está dentro dos livros sobre Winnicott e Jung que traduzo, ali, no meio das linhas, olha os olhos dela lá, vê?Ela está ali. Nos tijolos da parede, na poltrona preta, no cheiro da cama.Ela - a vontade que tenho de me apaixonar de novo, de sentir meu coração tumtum, de sentir meu peito pocotó. E se é ou não é factível ou provável, isso agora pouco me interessa. A vontade por si mesma agora se basta, agora. Este é o melhor sinal de que estou emocionalmente inteira. Não suportaria agora viver em meio a desconfianças e medos e silêncios - porque essa não seria eu, como nunca fui. Como, espero, nunca serei.

Eu.

Quem só me olha não pode me imaginar. Não consegue, nunca, me decifrar. Passo imagens erradas pras pessoas o tempo todo. Meu rosto tem traços fortes, sou bem alta. Ao mesmo tempo, estou sempre rindo muito forte e muito alto, meu olhar não se concentra em nada e em ninguém. Sou teimosa à beça, e geralmente uso a frase "é assim, sempre foi assim" para justificar qualquer opinião minha e acabar com a discussão.*Mas quem conversa comigo por mais de cinco minutos já percebe que não sou nada disso. Sou sensível e chorona, rio à toa porque sou boba, sou intensa e quero acabar logo com a discussão geralmente porque quero um abraço. Movo mundos para ficar com quem amo, e nunca percebo mensagens subliminares da outra pessoa - só entendo coisas literais e claras na comunicação verbal. Meus poemas, porém, são meu mundo de fantasias e lá eu posso brincar de metáforas e metonímias, de mim mesma e de eu-outra.*Isso tudo só pra dizer que, dentro dessas constantes e imensas botas pretas e por trás desses cachecóis laranjas e vermelhos, sou uma menina que gosta de palavras, churrasco, beijo na boca, cheiro do outro, cinema, cavalos e água doce. Meu corpo está aqui e meu pensamento, alhures. Tenho jeito de criança mas gosto de falar a sério, sou muito nova e muito velha, e somando as duas idades e dividindo por dois não dá minha idade real. Na verdade, eu mesma não sei a minha idade e ainda estou tentando descobrir meu nome. *Tudo é tão simples quanto pode ser. Dizer o que se sente. Correr riscos. Gostar à beça ou jogar tudo pro alto. Fácil, simples, singelo e forte. É assim que eu quero viver.

arrastando os móveis

Desperto.Desperto ou adormeço, caio no sono, no sonho, no poço?No poço dos "possos", dos "queros", dos "vamos"?Abrir o olho devagarzinho, pra esse sol desacostumado não se espantar comigoDe novo, aqui, invadindo essa cenaDe vontade e desejo e carinho, levantar pouc

# posted by alex @ 02:24


JULHO  

proposta


Olha só. A questão é como um envelope em branco, agora, sabe? Estou colocando o envelope dentro da garrafa, eu, náufraga, a ilha aqui, debaixo dos meus pés, a areia quente que me amarela os ossos. E jogo a garrafa na primeira espuma de onda que vem me cheirar, farejar, reconhecer, cachorro-pastor de água, cachorro-pastor que me guarda, vai, leva, leva, leva pra pessoa certa, leva que te dou carinho.
E tenho esperança de que o envelope em branco vai chegar às tuas mãos, vai chegar, você ali, na outra praia, do outro lado, num barco, rindo e tomando sol, ouvindo música alto e olhando as pernas que passam. Mas você vai olhar a garrafa e as iniciais do seu nome vão estar lá, escritas em vermelho, como estão já aqui dentro do meu peito, a pata do bicho em alto relevo, aqui dentro, na garrafa, meia de mim, ali. Em água e sal.
Você sabe meu nome. Você até sabe falar meu sobrenome.Ainda lembra do endereço?Sobe no perdigueiro do mar, no perdigueiro que me caça, e vem, vem logo.Porque aqui não tem sombra de dia. E a noite não existe. Não existe.

AH


Ah e por favor pare de dizer que me entende se não entende.Pare de dizer que quer se não quer, não diga que não quer se quer.Seja simples, seja sincero - porque eu NÂO ENTENDO nada que não seja estritamente o que é dito, e se eu passei essa impressão tantos anos atrás foi errado, ou menti, ou era outra.Ou todas estas opções - e não são? Não é tudo igual?Então solta esse teu cavalo que eu sei que você tem e me ouve e me escuta e me perdoa e acredita em mim de novo - haha, será? - porque era isso e é isso e sempre vai ser isso e a gente sabe.*Tá, você nem existe. Esse texto é pra ninguém.

troca de bichos


Porque os cavalos que estavam aqui pocotó foram enxotados por estes gatos imensos que arranham o peito por dentro. E sangro e tusso e dôo, e não enxoto os gatos porque os ratos mortos ali de dentro lhes são atraentes. Porque eu queria escrever coisas engraçadas mas não dá. Dá mas não quero, agora, porque não sou. Não sou coisas engraçadas agora, não serei por algum tempo.Porque quero ir pra Santorini conhecer o vulcão. Ir pra lá e só falar boa noite depois das 23h e nadar no mar escuro e frio. Mar, olha só, eu, eu querendo mar, que me deu tanto medo sempre. Eu querendo o Oceano. Eu querendo me afogar no Oceano porque ele me conhece. Porque sempre me conheceu, eu, o Vulcão, eu, só eu, pequena eu que preciso mergulhar em dois braços compridos e macios e ficar ali pra sempre, viver ali pra sempre, viver ali, viver.Só viver, era isso, era isso que eu quis e fui pro lugar errado uma vez, voltei seguindo a trilha das pedrinhas e a porta se fechou. Ah, não mora mais aqui; mora mas está na praia; mora mas não tem mais esse nome; mora mas casou.E eu, ali, vestida de chapeuzinho vermelho, voltando com a cesta vazia, dormi na soleira da porta.*E tudo isso não serve de nada, não é? Não serve de nada - são os livros que tenho de traduzir, a coca light que tenho pra beber. E o dia seguinte que tenho que acordar. Eu acordo o dia, entende? Ah, talvez entenda.Acho que sim.

futuro


(post sem acentos - meu teclado quebrou)
Nao me sinto mais apta a falar de voce, meu futuro,Porque nao te vejo e nao te sinto e nao te sei.Futuro que escorre em alguma parede que nao e minhaFuturo que explode bombas cujo veneno nao conheco.E isso nao e bom e nem e ruim.Mas e bom e ruim ao mesmo tempo.Porque sei que nao quero mais nada que me doaQuero tudo a que me doe, quero tudo que se doe,Tambem
E sem me doer e em me doar imagino-me mais euNao que nao o seja, hoje, talvez sendo,Mas vislumbrando um mais-eu que cintile e que sorriaE que tenha um suspiro guardado para despejarSobre maos que protejam e acarinhemIluminadas por olhos que brilhem de desejoE de ternura, a cada passo que dermos,Amem.
Meu futuro eu nao sei bem se existe.Eu ja existo pra ele, e isso e o que importa.

sobre


Um cansaço imenso. Parece que carreguei três elefantes roxos até o circo, nas costas, e voltei com elefoas brancas.Sério. Luto e luta, luto e luta, luto e luta, essa é a minha montanha-russa agora.*É uma dor física, até, aquela dor pós-academia, fora a cabeça que lateja e os olhos que arroxeiam. Mas é isso, e em meio a isso tudo tem muito trabalho, tem horizontes no palco lá na frente - fechados, ainda, mas alguém ainda puxa a cordinha da cortina, lá da coxia, pra mim. Ah, se puxa.*Tropeço, manco, até arrasto. Mas cair, isso não mais.Já conheço bem o chão. Ele é frio demais pra mim.

descasca...


E minha pele, agora, que queima, aqui, bem na bochecha esquerda. Arde, está áspera, tal uma queimadura, mesmo.*Não sei se desenvolvi uma certa alergia ao meu próprio choro. Estou perto de concluir isso. *Mas, de qualquer forma, é uma das coisas mais estranhas que já vi.

à beça


À beça. Sabe? À beça.Não tenho cabelo roxo, mas vivo à beça.I´ve loved you for a long long timeAnd there ain´t no cure for love.I´m aching for you babeAnd I cannot pretend I´m not.
Vivo à beça. E sabe, quando eu acordo eu penso, "wow, ainda respiro".E isso, creia, é uma puta de uma vitória.

Oggi in Poi


Não sou vítima de nada. Muito menos mártir.Não sei tudo o que quero, mas sei o que não quero.Profundamente.Meu livro caminhando, eu caminhando, a vida atropelando,mas é assim mesmo.O catálogo da minha vida não está escrito, mas está esperando para que eu escreva. Sabe? Não, você não sabe.Mas tem muita gente que sabe, e passa pela minha vida. Alguns até ficam. Não amalgamam como eu amalgamo, porque sou Pietra, lembra? Ah, eu lembro porque a condição está impregnada e guia.Guia mas pode ser desviada, às vezes, e a gente finge, e a gente ri, e às vezes a gente goza.Por tudo, de tudo.Minha memória não me trai, minha pele me acompanha.Mas eu amo e amo e amo.E isso nunca, ninguém, em nenhum lugar, vai tirar de mim.Há.



# posted by alex @ 02:10


::Terça-feira, Julho 13, 2004::



JUNHO

triz

Por um triz. Entende? Você me entende? Tudo por um triz.
Foi por um triz. E não sei se as coisas são assim ou é porque eu gosto da palavra. Por um triz. TRIZ. TRIZZZZZ.
Não, tudo foi assim. Tudo é assim nesse exato momento. Mas eu finjo que meu amor é pela palavra.
Por um triz.
By a trix.
Für einen trichen.
Per un trisso.
*
Finjo que amo tanto essas palavras que invento. E vocês acreditam,
Obrigada.

# posted by alex @ 21:39




MAIO

você sabe

E só você sabe que algo acontece
Quando um poema sai mais fácil do que um texto qualquer
Quando você daria um braço por um beijo
E nem sabe mais seu nome
*
Ou melhor: quando você percebe que nunca soube seu nome,
porque as pessoas chamam e você não olha.
*
Quando nem o espelho responde
Quando nem o espelho existe.

mordendo minhas mãos...

...e ouvindo estrelas, algumas. Algumas ainda falam comigo, lembranças de alguns anos antes, quando todas me falavam e me ouviam. Algumas ainda se comunicam, via de mão única, não me ouvem mais.
Minhas mãos cada dia mais marcadas. Cada dia mais vontade, vontade de te contar o que sonhei, com quem sonhei, por que sonhei. Mesmo que eu não saiba, mesmo que eu não lembre. Mesmo que eu me invente.
Porque eu posso me inventar também, assim como posso me desinventar. Mas não quero, acho. Agora não.
Só quero que você me olhe e me veja como alguém (des)inventante, (des)diletante, (des)interessante, que por ser des, pode se dar agora, pode se dar. Agora.
Agora.
Vem.

versim de pé quebrado ;-)

Então, eu aqui, com estrelas e afins
Nesse frio que não cabe no bolso
Com mensagens e-mails telefonemas quentes
E amigos. E amoigos. E amigos.
*
Coração que dispara vez em quando
Mas me falta coro, como já disse antes
E vale a pena? Acho que sim, claro que é
A pena do cocar do Índio Azul.

cracking

Uma cachoeira com piscinas naturais, algumas flores amarelas, pessoas simples que digam bom-dia, boa-tarde, boa-noite. É isso, é disso que preciso nesse exato momento e esse vai ser meu presente de aniversário.
*
Vou ser um pontinho na noite escura, lá no meio do Brasil, com pedras por testemunha. Pedras são as melhores testemunhas pra tudo. E o mar que bate, e que bate, e que bate insistentemente, esse eu deixo ficar um pouco. Mas um pouco apenas, porque não quero mais muita coisa, agora. Não é o tempo nem o caso.
Experimentando uma nova forma de sentir. Descobrindo que quanto mais dentro ficar, mais me fortalece. Ninguém sabe, ninguém vai saber - e quando digo ninguém, é ninguém mesmo, nem as paredes laranja, nem os tijolinhos. Ninguém, palavra que estou conhecendo há uns dias, no sentido original.
Eu me abraço vez ou outra, meus sonhos estão cada noite mais claros, e o crec-crec, como disse meu amigo, é das casquinhas caindo.
*
Bom dia, mundo. Levantemos, hoje tem teatro.
Só não tem marmelada. Isso tem não, não senhor.









# posted by alex @ 21:36




ABRIL

shhh

Você escuta esse silêncio todo?
Qual o gosto que ele tem aos seus ouvidos?
*
Nessun dorma.

ei

Faz tempo né?
Faz muito tempo.
E é uma válvula que nem fecha direito, eles dizem.
O paciente está morto?
Esforços, dizem. Esforços, ferramentas, imagens.
Não consigo me desligar do que eles dizem porque tento me desligar daqui de dentro.
Ei, aqui dentro é grande e quente. Sabe?
NAo, você não sabe.
Dá tempo de outra pessoa saber?
Acho que não dá. Seria muito tempo. E o paciente já estaria morto.
Sigo?
Sei lá. Pessoas, coisas, bichos, vocês estão vendo?
O futuro do passado. Aprendi isso com o Luiz Mantovani, na Literatura.
Então. Eu amo. Tu amas?
Sujeito indefinido.
Inexistente?

décadas

Porque já fazia muitos anos.
Um hotel vermelho, a gente ria.
Uma praça cheia de gente, você com medo, lembra?
Samba. Eu ri também.
"Não tem uma noite sem você", você disse.
E você em cima de mim, sempre.
Em cima, sempre.
"Não tem sem você, não tem, não pode".
Eu adorava. Eu adorei.
*
Passou. vê só?
Tantas noites agora sem mim. Sem você.
Sem vermelhos, sem samba.
Sem.
Tantas noites sem.
Noites?
Ha.

noite linda

E é isso que ela é, uma noite tão linda, hoje, meio quente meio fria, por conta da minha febre. E é uma noite em que os cachorros me saúdam e minha filha ri à beça e sim, temos mesas de madeira que sustentam desejos e vontades e verdades. Ali, do outro lado da rua. Bares desconhecidos, depois a gente vê como são intimamente conhecidos e nada suspeitos, de tão suspeitos que são. Carnes e cervejas e risadas e tudo o mais numa noite sem estrelas que vai longe e segue infinda.
Assim sou eu e assim é você e assim somos todos. Sem estrelas. Infindos. Até o fim.

porque é uma nuvem

e não chego lá, não toco. não alcanço e talvez não veja. a nuvem que não existe.
eu aqui e ninguém mais, ninguém nunca, como sempre.
sempre ninguém nunca e nunca ninguém, e é e foi e vai ser. porque minha força congelou como já congelara antes e porque ninguém vai ver como nunca viu.
porque eu sou a nuvem à qual ninguém chega, não toca. não alcança e talvez não veja. eu sou a nuvem que não existe.






# posted by alex @ 21:32




MARÇO

meio lá meio cá...
...como você disse, hoje de manhã.
meio lá, meio cá. meus cabelos de fumaça; meus olhos ainda pingando chuva.
pingando. olhando. chuvando, na falta de tapetes e também nos tijolos.
*
e pra quando é isso?
se é que é?
só sei que a felicidade está, e estou enfumaçada e pingante.
e não entijolada, agora, talvez amanhã também não.
*
só espero estar totalmente aqui.

ow

ow.
de novo, não.
Deus meu, de onde?
tirar tudo isso de força e tal?
pode ser hoje, sei lá.
pode ser segunda-feira.
mas não, não sei se dá.
sério.
de novo, não.
mesmo.

versinho

Se me olhares nos olhos, ficas.
Se me deres as mãos, és raro.
Acreditando em mim, sou tua.
E dizendo a palavra, és meu.


ombre


Tudo isso que dentro de mim escorre - à revelia
É aquilo que não tentas segurar - mas também não estimulas.

Aquilo que delineia nossas sombras - (pas alegria)
Não vem dos instantes passados - e sim das vontades tão cruas.


Wings

As asas que começam a aparecer.
Já dentro, elas, as asas, há muito. Eu na toca, crisálida, ainda.
Se estou à vista, crunch.
Na toca, tranquila. Serenidade, um pouco.
*
Agora começam a brotar, aqui. Bem nas costas, vê?
Coça um pouco. Mas o vento batendo aqui é uma sensação indescritível.
Não posso falar ainda porque nunca fui. Estou sendo agora.
Só dá pra falar do que se vive.
Ou nem isso.
*
Por isso, shhh. Taci. Non parlare.
VOLA!

Pietra

Porque esse deveria ser meu nome.
Sempre. Sou pedra, não me movo, e tchabum, o mar bate em mim o tempo todo. Quero ir também, mas não consigo. Jogo uns cascalhos, finjo que vou, sabe? Finjo que vou, e as pessoas acreditam. Mas eu não vou, eu nunca fui, e às vezes duvido que algum dia consiga ir. Porque sou pedra, porque sou pietra, porque sou roccia, rock, stone, erigiram-me aqui e aqui estou e tenho muito medo, e tenho tanto medo, meu Deus, quanto medo aqui dentro, e já sou meio medo e meio pedra, dura, tudo duro, tudo tão frio. E dentro de mim às vezes desejo que fosse oco, pra poder me deixar mais leve, mas não sou passagem, e sim acumulação, e tá tudo acumulado, aqui dentro, olha, tudo tão acumulado e amalgamado, mesmo aquilo fragmentado está todo aqui, nas caixinhas, e não vou porque não posso, porque não tenho raízes mas sou tão pesada, aqui, entre toda essa massa pétrea que um dia achou que eu pertencia àqui, e eu acreditei, e deixei, e fiquei. E agora não tem eu que não fique, porque fiquei e fico, e resto. Por isso os peixes passam por mim e riem. Por isso as ondas passam e avançam sobre mim. Por isso as algas aproveitam e se prendem em minhas pernas, e por isso eu grito e o grito que ninguém ouve vira pedra também, ele também. Que Midas irônico esse, que tudo toca e tudo gruda, e amalgama, e fica dentro, bem dentro, bem fundo, e não larga, e craca, e petrifica.
E esse é meu segredo mais íntimo.
E é isso que me dói tanto e eu nunca consegui dizer.
E eu ia pedir um abraço.
Mas podem ir embora, agora.
Vão e não olhem pra trás.
Porque de estátua, basto eu.

Mood

Ou mais do que isso. Sinto que me descascaram e eu não sei ficar assim. Não sem um abraço, agora. Aquele que não vou ter, agora.
*
Borboletas aqui na minha cabeça, muitas, e tantas no meu peito. Medo do pânico, medo do vácuo.
Estou exposta demais e não consigo mais achar minha casca de sequóia. Tudo hoje foi tão bom, mas meu rosto continua molhado, e meu peito ainda preso, como se tivesse tanta coisa ali dentro que nem eu sei o que é.
*
E não quero saber, mas é um parque de diversões ridículo, porque eu não quero nada, não quero surpresas e bum! bem-vinda à roda-gigante da tua cabeça, e bum! olha o show de palhaços da tua vida, e bum! lá vem a fanfarra do teu futuro, e parará-tchhh.
*
Meu desejo era conseguir dormir, mas meu corpo se pendura em fios de alta tensão.
Me descascaram sem pedir licença.
Colocaram um espelho na minha frente sem perguntar se eu queria.
E eu vi, e estou vendo ainda, e se fechar os olhos só piora.
*
Essa folha em branco em que escrevo também me reflete. Vou fechar o caderno, é tudo que posso fazer. Desculpe.
*
Talvez eu abra depois.
Depois de ser suturada, de cima a baixo, pelo abraço de alguém.

abdução

E o cara entrou no elevador e falou sobre abdução.
Mas eu não acredito nessas coisas.
Como eu não acredito no que sinto agora e no que descobri dentro de mim, mas tudo é verdade, pode acreditar.
*
Tudo tão difícil, às vezes. Você sabe, vocês sabem.
*
Música chata na televisão, meu cachorro pedindo carinho, mas como eu posso dar alguma coisa que eu nem tenho agora?
*
Ah, e se você me pede pra explicar, acho que não. Acho que não, você sabe que sim, e você sabe que sempre.
Que sempre.

Lua-me

Lua cá dentro.
Olho pros lados e tudo escureceu?
A lua aqui dentro, salta aos (meus) olhos. No espelho.
Na água da banheira.
*
O cheiro aqui é o mesmo, beibe. Os tijolos no lugar.
Balões em cima da mesa, ainda. Pedrinhas coloridas.
Mas essa lua eu ainda não tinha visto. Não nessa água.
*
Vou beber a lua hoje.
Água pra dentro, docificada - enluararei-me.
Pra mim.

horas bolas

E meu relógio parou.
Ele pára uma vez a cada 6 anos.
E quando ele pára, uma coisa muito muito, mas muito boa acontece.
Diz que é o que eu estou pensando.
Diz.
*
Obrigada.
*
PS. Meu cheiro é de Dolce Gabbana, if it rings a bell or something.
Marry me.



Tesouro


Desaguada. Ainda.
Mãos pelos pés, escorrendo-me em palavras e suspiros.
Porque às vezes não dá pra guardar as coisas nos bolsos.
Porque às vezes nem bolsos eu tenho.
*
Tuas mãos, aos meus pés.
Isso pra mim era tesouro.

felicidade?

não, obrigado. estou muito ocupado em ver as coisas cinzas. pra que procurar a felicidade? e se eu achar? vou ter que lidar com tudo o que ela traz. jogar tanta coisa fora. viajar. amar. me olhar no espelho.
mesmo todos os momentos esfregando na minha cara barbada todas as cores de felicidade, eu fecho os olhos. sabe por quê?
eu continuo, assim, achando que a felicidade vai cair na minha cabeça quando eu virar uma esquina, jogada por um anjo de cima de um prédio. e vou acreditar nisso pra sempre - porque isso não vai acontecer, mas ninguém vai poder dizer que eu não acreditava nisso.

vaga

Teus olhos de cartum.
Queria ter olhinhos de cartum, também. Quando eu me desenho, eu sempre coloco estrelinhas no lugar dos olhos.
Mas os teus são duas meias-luas, fechados. Dois sorrisinhos, na hora de dormir.
























# posted by alex @ 21:20


::Sábado, Abril 24, 2004::



extended

Dias espessos, esses.
Quentes e espessos, de grudar suor e palavras em tudo que se movimenta.
Água por tudo que é canto, canto em tudo que é (m)água.
Estico minhas férias até segunda-feira.
E durma-se com um barulho tum-tum desses.

# posted by alex @ 20:32




FEVEREIRO

lost in translation

Fui ver hoje.
Minhas percepções?
Sabe aquele sussurro no final do filme?
Aquele é o filme.
*
O sussurro é a história toda.
Um sussurro que ninguém ouve, só quem sabe.
Ele e ela, no caso.
E eu, e você, e todo mundo.
Todo mundo tem o seu sussurro dentro de si.
Pra ninguém mais no mundo. Pra ninguém que assiste.
*
O sussurro é a vida. É o pocotó dentro do peito.
*
E basta.

madrugada

Já é madrugada e eu preciso ir dormir, mas como, agora? Aquela dor do lado direito que sinto quando estou fértil, aquela dor que me deixa ligada e desligada alternadamente e tudo ao mesmo tempo, aquela dor parece que tomou conta de dentro de mim inteira e tudo dói no sentido menos literal e mais perfeitamente adequado ao momento, e não sei fértil do que estou agora, não sei se em minhas areias quentes e secas agora cabe semente, mas agora é o momento e meus pés ainda enroscados, sinto. E tudo isso que podia acabar talvez com uma palavra, talvez com uns dedos enroscados nos meus ou até com uma brincadeira boba que me fizesse rir. Muito. Escancaradamente, até sair lágrima do meu olho que se fecha com os grãos do deserto que o vento insiste em jogar na minha cara. Eu não sou camelo, eu não guardo (m)água, eu não guardo nada. Não tenho gavetas, sou um banco sem praças em volta, sou um não-ser o tempo inteiro até encontrar um espelho que não reflita meu rosto. Acho que esse seria meu oásis. Nada de palmeiras ou fênix ou coisa que o valha - meu oásis seria esse espelho que só eu sei o que refletiria. Se existisse. E eu não existo sem esse espelho inexistente, e pedra sou, e pedra fica.
Pois pedra fico.

Sal

Todo o sal esparramado, quero todo ele, agora, na palma da minha mão. Entorpecer por acumulação e não por passagem.
Lamber, sentir, engolir talvez. Desterrar.
Dessalguei há algum tempo e agora tenho fome. Alagada. Desa(r)mada. Melodia em três tempos, tropeçando a dois por quatro, mas indo em frente e rindo de mim.
Rindo muito de mim.
*
Então me dá teu sal e - repito - diz qual é meu nome.
Talvez eu goste. Quem sabe eu fique.
Pelo menos um pouco.



# posted by alex @ 20:31


::Domingo, Janeiro 25, 2004::

JANEIRO  

ano novo

2004.
E eu continuo dormindo com o travesseiro em cima da cabeça. E deixando o rádio ligado, no carro, enquanto vou à padaria para ver que música está tocando "de presente" para mim quando eu volto. Continuo procurando estrelas toda noite, lembrando de quando eu viajava em cima das caixas de som do galaxy dourado do meu pai, pra Ilhabela. Continuo achando que quando eu perco um brinco é sinal de sorte, e rezando todas as noites. Continuo sonhando com lobos que me mordem e que eu não quero matar. Ainda penteio meus cabelos pro lado e mudo de cor a cada mês. Continuo ouvindo Cyndi Lauper a todo volume, e chorando com músicas novas dela como "Walk on by" e "Stay". Ainda insisto e insisto e insisto.
E me dá vontade, às vezes, de deitar no colo da minha mãe e dizer "mamma, já é 2005?"..

tranquilità

Parece que estou roçando a mão em algo que me parece ter a textura da tranquilidade. Se for isso mesmo, fico feliz - nunca estive assim perto, tanto é que não reconheço esse cheiro de madeira.
*
Serenidade, tranquilidade, clareza - as damas que vêm trazendo a redenção pras três guerreiras do meu apocalipse - vontade, permanência, intensidade.
Essas três que estão do lado de lá da porta, por enquanto - batendo, batendo cada vez menos, dormindo de vez em quando na soleira. Deixo um prato de carne crua pra cada uma delas, rapidinho, e volto pra dormir.
*
Dormir coberta pelo perfume, que vem de longe - cada vez mais de perto -, de madeira escura e úmida.

Brother
There are these days when a Fedex truck
stops by my house
and I don’t go out
’Cause it’s dawn.

Other days, late at night,
I open the door and on the doorstep
there is nothing but the option
for me to look up and drink stars.

But sometimes; sometimes, you know
-when one does not know what time it is-
I don’t even open the door
I open my eyelids – and oh! brother’s there.

Irmão

Tem dias em que um caminhão de entregas
pára na frente de casa
e eu não saio
por ser madrugada

Outras dias, tarde da noite,
abro a porta e, na soleira,
não tem nada, só a possibilidade
de olhar pra cima e beber estrelas.

Mas às vezes; algumas vezes, sabe -
- não se sabe se é manhã ou se anoitece -
eu nem abro a porta -
abro os olhos. E meu irmão está em casa.

até escorrer

E se não fui, sinto um cheiro agora de alguém que acho que serei, alguém que talvez eu esteja tocando, já, com as mãos tranquilas. Estas minhas mãos que também seguram uma rosa e a espremem até escorrer um líquido de cor doce, com cheiro vermelho. Sem espinhos, não mais, aqueles que me deixaram alérgica após alguns anos.
Não mais me entrego desatada, visto que atada sou - ainda - a algo alhures, e também já que me entregar não é bem o verbo que me vem à cabeça nesta hora. Me experimento, sinto o calor do parapeito da varanda e olho não pra cima, mas pras torres bem à minha frente.
Olhos sem o allegro de outrora, me disseram, muito bem, experimentemos então um sustenido, um sol maior, um lá. Lá. Acho que lá é melhor. Um moderato cantabile, então, pra eu não ser mais unsingwithable anymore.
Pode cantar comigo. Me dá um anel de prata. E a gente de repente até escreve junto. Não quero gritar, não vou morder, lágrimas também não quero, obrigada. Talvez eu sorria. Talvez eu aceite.
Mas isso também é só especulação.

oceano

e eu que sempre preferi o campo à praia.
vontade de mergulhar fundo, bem fundo, na água salgada e quente. olhar pra baixo e ver estrelas, for a change.
dormir um pouco, dentro de uma concha. sem barulho. sem som. sem ar.
um pouco.
*
talvez eu ache uma arca à la Disney. em cima de uma pedra com muitos ouriços. o que vai ter dentro dela? eu sei o quê. mas não posso contar.
*
mesmo porque sempre é essa a hora em que eu acordo.

Gentle

Fala baixinho comigo. Sê macio. Sorri quando o sol bate no meu rosto, de manhã, e me acorda. Desenvolve a mania de ter as mãos dadas comigo. Andar de mãos dadas, beijar no cinema. Fala baixinho comigo.
Fala baixinho.
E eu posso até te amar.

# posted by alex @ 17:39


::Terça-feira, Janeiro 20, 2004::

DEZEMBRO 2003  

carinho

talvez chuva, talvez um cheiro de gengibre, talvez cerveja, ou quem sabe um beijo.
tua pele na minha pele,por favor.
tuapelenaminhapeletuapelenaminhapele e é difícil não dar espaço mas eu não quero dar espaço. eu não quero dar espaço.
tuapelenaminhapele. tuapelenaminhapele.
sem espaço. por favor.

*

nada de mais

uff, calor - apesar de uma febre sem noção não ter me deixado senti-lo por três dias, visto que fiquei embaixo de um edredom de dois quilos, só saindo quando em vez para revisar um texto ou levar o Prozac no veterinário (tadinho, ele também está mal - o Prozac; não o veterinário).
*
A febre me faz perder também a noção do tempo - quando acordei, hoje já era quinta-feira. Febre pra mim parece sonho - é um abismo do caos, sem tempo, sem espaço, sem nada a não ser o fogo, o fogo.
*
Daqui da janela, um céu em vários tons de azul-pastel, com alguns lampejos de rosa perto da torre que pisca. Poético.
Tudo fica meio roxo, os prédios, o céu, o escritório. Essa hora é muito linda.

don't think

como não pensar. escrever sobre não-pensar é como não deglutir uma coisa que existe, cuspir, rejeitar.
estou sem pensar, sem tirar conclusões, há uns 4 dias.
a dor é menor quando não se pensa nela. o amor é menor quando não se pensa nele.
na minha cabeça, pelo menos.
parece que minha cabeça tem uma lente de aumento. se eu penso no que sinto, sinto dois bilhões de vezes mais.
quero pensar no que faço, agora. porque no que sinto não adianta agora, e parece que nunca adiantou.
pensar no que faço, e fazer. não pensar no que vou fazer, mas no que estou fazendo.
o que adianta pensar no que sinto? me paralisa. quero falar, não tem com quem. e se falar, não tem como falar exatamente o que sinto, então é melhor não pensar, não falar, não sentir (tanto).
dormir. escrever. ler. rir. abraçar.
fazer.
porque mesmo pensando tanto, as coisas vêm e caem na minha cabeça. não adianta. melhor olhar pra cima e fazer - sair de baixo e deixar as coisas se espatifarem no chão. sem pensar. pensamento não sustenta pianos que caem na minha testa.
nunca sustentou.
*
enough

teumeu

como dizer "é teu, não é meu", se na minha alma o arame farpado esfiapou tudo e já não tem teu e meu?
se eu sou tua e você (ou tu, whattafuck) é meu e já não existe nada que signifique barreira ou limite?
ah deus, como eu queria ter algum limite pra alguma coisa mas eu simplesmente não consigo.
e isso não é de se invejar; é de se lamentar. prasempremente.
porque não acho que um dia vá conseguir dissociar o você do eu.
porque aprendi muito assim, mas não o suficiente.
porque o campo de concentração do voceeuvoceeuvoceeu continua aqui e dá choque e eu emulo você e bebo uísque e fumo marlboro e ouço as músicas mas não me livro do meu eu.
porque o meu eu está acorrentado pelo tornozelo no teu ombro e grita agora. grita tanto que não durmo, grita tanto que me apavora.
porque quando eu disse "pra sempre"alguma coisa me carimbou e mandou a carta lá pra longe e é lá onde eu estou.
estou lá longe no frio e na neve, observando o voceeuvoceeuvoceeu que se apavora. e não posso fazer nada pra te desacorrentar.
a fraqueza é o leão mais potente que já enfrentei nessa vida.
desculpe.

# posted by alex @ 20:17


::Quarta-feira, Dezembro 17, 2003::

NOVEMBRO  

mãos dadas

Mãos dadas?
Talvez.
Você me leva passear de novo no campo de girassóis que deixei lá pra trás? Um perfume dessas flores acho que é do que eu precisava agora.
*
Torno-me inofensiva, às vezes.
Fecho a boca e minhas palavras já não existem.
Quisera ser assim eu também, fechar os olhos e não existir
Por uns momentos.
Sapateando frases e verbos já repisados - caminho, esse?
A noite já caiu e eu em pé. Levantando suspeitas escuras.
Coisas que não são já são, porque quero que sejam e acredito.
Acreditar talvez seja o não-verbo do agora.
Talvez seja.
*
Mãos dadas?
Sim.
Porque não creio.

meus teus

O teu eu em cuja sombra durmo às vezes - sobre ele, o quê? Se enrosca em abraços nas crateras que cavei e que molho, dia após dia - e de onde vez em quando vem um perfume de flor branca.
O meu você, aquele que não aparece no espelho - sob ele, o quê? Se abstrai em existires transparentes que toco, banho e cuido - e pr' onde vão a cada noite os mais suaves pensamentos.

# posted by alex @ 18:33


OUTUBRO  

amealha

Amealha-me, querido, junta então a dividida
Minha lagoa que agora é inundada por teu rio
Pergunto-te, então, cá no instante-calafrio,
Meu amor, me diz, é líquida, afinal, a vida?

Ah Valente, do pano azul estendido no sofá
É que vêm todas as coisas que agora já nem são
E é isso que eu quero te dizer – é um preto alazão
Que corre no meu peito sem querer nunca parar.

As palavras aspiradas no calor de meus ouvidos
Sussurradas feito pano em minha saia
Tecem sem medo o valor do porta-jóias
Em que guardo, carinhosa, os instantes mal-vividos

Da lagoa, meu Valente, vêm os ventos da canção
E é a eles que me entrego, feito sereia sem asas
E é pra eles que ele faz, o tum-tum, meu coração.

mondo grande mondo

Já não inflamava mais. Já não comia a pele dos cantinhos dos dedos até sangrar para não estragar, roendo, as unhas vermelhas. Explodia, às vezes, mas isso não inflama - evapora, exaure. Alivia.
Sufocava, de vez em quando. Por tormentos externos ou internos, o que na verdade já tanto fazia - no boundaries, disseram.
*
Ah então pronto. Deita minha cabeça aí no teu colo e vai contando os fios dos meus cabelos como eu conto as estrelas lá do céu, desde pequenininha. E não cansa, e não pára, pelo menos por agora, porque eu não vou parar também.
E eu vou te dar o mundo. Só pro teu mundo ser eu.
Big Bang.

sake

sobre o livro por sobre o qual a traça já passou correm os seus olhos já úmidos de palavras e verbos e traços. ela tenta transitivar os verbos intransitivos antes do ponto final e ponto! já acabou a frase e ela corre pra linha seguinte, com ainda um tracinho de esperança a virgular a respiração contida.
vontade que as coisas continuem, vontade de sempre ter um capítulo a mais que diga que o ponto final é um grande mentiroso.
talvez por isso ela sempre leia o livro de trás pra frente, feito japonês. assim ela prova a si mesma que depois do epílogo tem tantos outros capítulos ainda a serem lidos.
*
um outro gole e a esperança fecha o livro.
a leitura inacabada embriaga como a garrafa do sake.

translação

Seis e quinze, meu olhar-teu sol que se alça à idéia de você
você, campo de trigo, você, os cataclismas, você, a macedônia.
Minhas íris, raios pra te aquecer por doze horas e meia,
você, todo outonos, você, os sete mares, você, a babilônia.
*
Quinze pras sete
Meus olhos se põem por detrás das colinas dos teus ombros.
*
Um Japão que vira Islândia. Teu sol não sai mais daqui.

O Ogro Papa-Almas

Acho que era sexta-feira. Era, definitivamente, sexta-feira, pelo cheiro cor de laranja do ar.
O Ogro-Papa-Almas tinha subido em sua jangada e a sombra imensa dele ainda se refletia no canto da mesa quadrada da sala maior; e o Medo tinha pegado carona na embarcação e aproveitado pra ir junto com ele.
Chovia e algumas rosas teimavam em não abrir - quem sabe besouros turrões dentro delas as tivessem trancado a chave.
Uma vida inteira sem mar, porém, desabrochava feito setembro no peito da moça. E já era mar e já era outubro e já eram jangadas nunca mais retornando. Sombras não mais, Medo não mais, Ogros talvez - mas não por ora.
Ficou amiga do besouro turrão - e ele lhe emprestou a chave-mestra tranca-portas. Trancou então o seu mundo e ninguém mais entrou nem saiu.
*
Dizem que o Ogro mudou sua dieta e foi visto, pela última vez, no alto da torre, junto com o Medo, comendo insetos ao molho de flores. Mas pediu pra não espalhar - afinal, ele tem de manter sua reputação.

# posted by alex @ 18:31


SETEMBRO  

tudo tudo

seus olhos pequenos que abraçam tudo que eu tenho de sombra em mim.
o seu olhar, valente, seu olhar apertado de quando você sorri a boca bonita, é desse seu olhar que eu tenho mais saudade agora.
*
pocotó no meu peito, pocotó hoje mais do que nunca, acho. e sei que você está comigo porque eu sinto, e senti hoje de manhã o tempo todo, e ouvi o seu sorriso. ei você que rebatizou meu corpo, olha só, hoje de manhã rebatizei a minha alma, e eu estava com minhas mãos assim bem dadas com as suas.
*
(e acho que é assim que elas vão ficar por muito tempo.)
te amo tudo.

noturna

Afogada no sol que parte
A licorosa distância me parte
Em duas, e três e quatro,
E às cinco da tarde já sou seis.
*
E é submersa que me deito, entreaberta, e o veio d´água já fragmentado em dois e três e quatro é o rio que me corre entre as pernas, pra longe do porto.
*
Horas antes, os navios ali; os navios sumindo, horizontes.
Uma reserva d´água salgada ainda na boca que não diz.

noite

ei valente, aqui do teto de casa a cidade parece um grande bolo de aniversário, cheio de velas piscando.
velas amarelinhas e laranjas, algumas azuis.
uma música ao fundo, que não é parabéns a você, mas exalta tanto quanto.
*
ei valente, ei valente cavaleiro, as sombras aqui nem existem. a sala ainda está meio careca, falta cor, acho. texturas, talvez? e se o caracol da escada que leva lá pra cima for pintado das sete cores do arco-íris? só o caracol, não os degraus. seria lúdico? seria doce?
*
ei valente valente valente, queria encher as paredes de tecidos.
comprar talvez mais alguns travesseiros de penas pra camona.
ganhei um perfume novo de baunilha.
*
ah, valente, quer saber? um abraço teu me bastava agora.
boa noite.

sooooooooool

e soooooooooooooooool que amanhece todos os olhos.
todos os sorrisos amanhecendo de uma vez.
entardecendo as poeiras que um dia foram; não são mais. tarde demais.
cedo demais para dizer se entardeceremos juntos, mas o sol que acaricia ilumina as verdades, as minhas e as suas.
o sol, aquele que gira-gira-gira-gira as vontades, as nossas.
gira-gira-gira-sol, agora e para sempre.
amém.

# posted by alex @ 18:27


AGOSTO  

aldeias

Dentro dos teus olhos tem duas aldeias escuras
Que se alaranjam só na madrugada
As pessoas que lá moram andam devagar
E falam outra língua.

Heranças labirínticas? Impetuosas lembranças?
Nada disso, nem meio disso - tudo é novo ali.
E ao mesmo tempo, tudo se cria o tempo todo.

telhados

Telhados cor de ferrugem com clarabóias escancaradas deixam entrar borboletas cobertas de pó de pólen que estranham tudo, dos móveis descascados até o cheiro almiscarado que permeia cada fresta.
E cada fresta é uma entranha a mais e cada escancaro é um casulo a menos.
*
Uma lembrança do que foi uma petúnia.
Uma saudade de um flanco que aquecia.
Uma vontade do abraço desistido.
*
Imediatamente antes, entre a manhã e o soluço, prosseguia a paisagem.

tiquetaquetando

a ponta dos meus dedos
borboleteia algumas linhas
insubstanciando,
freneticando saudade.

descoisando coisas
o tumtum do meu peito
passa a vida toda
tiquetaquetando.

paradoxo

Grande em teus pensamentos.
Pequena em tuas mãos.
É assim que eu quero.

imaginário

Letras molhadas de roxo, aquela primeira letra sempre
E um esboço de sorriso pinta meu rosto de mim mesma.
*
E já não é mais o sol amarelo mas uma grande e gorda lua que paira sobre minha cabeça e o céu é qualquer lugar como sempre foi mas se escondia porque eu não acreditava nele.
Tal meu amigo imaginário, o Licki - quando eu descobri que ele não existia, ele desapareceu. Necessariamente nessa ordem.
*
**Mergulho**

# posted by alex @ 18:24




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